segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A magia de Escher


Em Portugal, não há política cultural ou é practicamente inexistente se exceptuarmos a Gulbenkian e Serralves. E nos próximos tempos será pior pois o objectivo do governo é alimentar a gula especulativa dos mercados e induzir cuidados paliativos em bancos com morte cerebral devidamente certificada.

Provavelmente passou despercebida a exposição A magia de M.C.Escher patente em Évora, até 23 de Janeiro, o que prova que, além de Lisboa e Porto, o resto é paisagem.

A obra de Escher é uma viagem fascinante ao mundo do paradoxo e do impossível e acenta essencialmente no purismo das formas geométricas.

O artista português Nadir Afonso tem exactamente a mesma cultura conceptual em termos artísticos, tendo afirmado ao saudoso Carlos Pinto Coelho, num programa que passou recentemente na RTP2 o seguinte “ Quando se refere que a perfeição em matéria de arte, foi pintada com a alma, não é verdade. Só atinge a perfeição, aquele que tem capacidade de descobrir, na natureza, essa lei matemática”.

Extraordinário, sem dúvida, mas não me convence! Descobrir a alma através de equações, funções e variáveis é demasiado redutor ... está visto que nunca serei capaz de atingir a perfeição nem descobrir se tenho alma, por uma razão muito simples, a matemática causa-me um tédio enorme. Mas recorro frequentemente à matemática para somar afectos sempre que necessário e subtraí-los quando se torna imperativo.

6 comentários:

O Raio disse...

" nunca serei capaz de atingir a perfeição "

É natural, já a ultrapassaste...

Ant. Silva disse...

Peço desculpa pela intromissão, fiz um trabalho sobre a obra de Nadir Afonso. Fala de uma matemática intuitiva na obra de arte, jamais se refere a matemática dada pelas equções. Do mesmo modo penso que está a confundir aquilo que Nadir Afonso designa por harmonia de perfeição que são conceitos diferentes.

Kikas disse...

Ó Raio, um expert em matemática dizer uma coisa coisa destas é terrível ... assim, estragas-me com mimos, lol!

Kikas disse...

Ant Silva, em primeiro lugar, não é intromissão nenhuma e todos os comentários são uma mais valia mesmo aqueles que evidenciam que sou uma perfeita leiga nesta matéria.
Mas quando referi purismo geométrico, lembrei-me de geometria analítica, utilizando princípios algébricos, daí as equações e outras referências que utilizei e, como você diz que não têm rigorosamente nada a ver com a obra de Nadir, eu acredito piamente na sua análise.
Mas continuo a achar redutora a harmonia da perfeição, encontrar harmonia no caos, é que eu considero um desafio interessante, daí que eu seja uma apreciadora confessa de arte surrealista ... aqui sim, o papel principal é desempenhado pelo inconsciente na actividade criativa.
Parafraseando ainda as palavras de Nadir na tal entrevista, recordo que ele disse também que privilegia as críticas à sua obra, de pessoas que não percebem nada de arte porque é uma crítica isenta dos vícios que geralmente caracterizam os especialistas. E eu, como sou uma mulher vaidosa, vou seguir à risca as palavras do mestre.

Lolita disse...

Sou do Porto. E apesar de termos Serralves, a Casa da Música e o Coliseu, os espaços mais sonantes e em destaque da cultura portuense, atrevo-me a corrigir-te e dizer que, infelizmente, além de Lisboa, o resto é paisagem!!
Porto tem um cheirinho, apenas!! E o resto do país... é uma miséria!!!
Será um questão de números, ou será a ganância da centralização que nos subtrai o direito à cultura????!!!

Kikas disse...

E tens toda a razão, Lolita. Mas conheço Serralves e fiz questão de incluir este espaço fantástico no escasso roteiro cultural português.
Além da questão da ganância e dos números que referes, o maior problema para o défice cultural é uma mera opção política.
O povo gosta é de fados e futebol e afirmo com convicção e desgosto (também) que o Estádio da Luz e a Casa da Mariquinhas, são fortes concorrentes à Gulbenkian e Serralves.